domingo, 22 de novembro de 2015

tenho em mim
a lembrança 
de um fevereiro
acho que de 86
uma fotografia
daquele lugar de desordem 
eu alimentava os peixes 
três televisores quebrados 
na sala de não estar
onde ninguém estava
eu, ansiosa, esperava você chegar
até sentir o cheiro de seu cachimbo
dobrar a esquina
e pairar sobre meu ar
ainda de menina
vi você entrando pela porta apressado
sem perceber o quanto me amava. 
eu era como a mobília daquela sala de passagem
até o instante em que toda indiferença foi desafiada
por um chamado meu:
"Pai?!"
você virou-se para mim 
em silêncio 
estatelando-se 
esperando o êxtase de alguma coisa. 
lembro-me que sorri 
como se fosse um hoje
cheio de amanhãs e de ontens. 
foi extraordinário aquele momento
aliás, nunca houve em mim
outro momento como aquele. 
você se sentou
sobre a inútil poltrona xadrez
daquela sala de estar
para não cair. 
eu, naquela época, só sabia sorrir
você já sabia chorar
também sabia abraçar como ninguém. 
e ficamos ali. 
eu fiquei ali. 

Um comentário:

Gabriel Guimarães Dutra disse...

Geralmente estas reminiscências particulares de infância servem mais para o próprio poeta descobrir-se do que como uma peça de fruição para o leitor. Posso citar poucos poetas que conseguem traspor esse universo familiar e encher a realidade de todos com algo de imutável e perene. Lembro-me sempre de Drummond e suas paisagens itabiranas, seu "álbum de fotografias intoleráveis,
alto de muitos metros e velho de infinitos minutos" que saltam dessa realidade interiorana para instalar-se no imaginário coletivo. Você, como excelente escritora, também tem suas imagens e métodos para romper essa barreira. A "sala de estar onde ninguém estava" onde um passo apressado e cego foi suspenso e "toda indiferença foi desafiada" pelo "êxtase de alguma coisa". Quem não tem uma recordação dessas? Quem não lembra do objeto que faz a vez dessa "inútil poltrona xadrez"? Do particular para o universal, como mandam as cartilhas. E mesmo assim, não existem cartilhas para o que você faz. Me emocionei muito e compartilhei toda a tensão e afeto dentro desta poesia.

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